Espuma dos dias — Burevestnik: o míssil revolucionário da Rússia. Por Giuseppe Masala

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

Burevestnik: o míssil revolucionário da Rússia

Por Giuseppe Masala

Publicado por  em 27 de Outubro de 2025 (original aqui)

 

 

 

Putin anunciou ontem ao mundo a introdução de um novo míssil de cruzeiro com alcance ilimitado porque é alimentado por um mini-reactor nuclear. Um míssil formidável que cancela o próprio conceito de alcance e espaço, tornando o espaço europeu e a própria NATO estrategicamente inúteis para os EUA.

 

En 2016, quando se anunciou o primeiro teste do míssil hipersónico russo Zircon, capaz de voar a Mach 5, escrevi um artigo para Megachip no qual explicava que nos enfrentávamos a uma arma revolucionária, capaz de alterar o equilíbrio de poder, especialmente nos oceanos, dado que se tratava de um míssil desenhado essencialmente para a guerra naval e capaz de pôr em perigo a superioridade marítima dos Estados Unidos que – como sabemos – conta com uma enorme frota dividida em poderosos grupos de ataque liderados por supera porta aviões mas que carece de defesas contra mísseis que voem a velocidades hipersónicas.

Este anúncio, em minha opinião, foi a primeira chamada de atenção para a hiperpotência hegemónica estado-unidense: havia países capazes de infligir enormes danos numa guerra convencional e, portanto, sem ter que ameaçar com o uso de armas nucleares.

Outros factores agravantes foram o facto de que o Zircon ameaçava (e continua a ameaçar) a superioridade estado-unidense no mar, que é a pedra angular do poder militar estado-unidense: não é por acaso que os estudiosos da geopolítica tenham sempre definido os Estados Unidos como una talassocracia, ou seja, un poder fundado no domínio comercial e militar dos mares.

Os Estados Unidos têm tido a sorte de que a Rússia não seja uma talassocracia e, portanto, nunca se centrou realmente neste míssil hipersónico para a guerra naval, construindo uma frota capaz de contrariar a frota estado-unidense.

O caso da China é distinto, que nos últimos anos desenvolveu os seus próprios mísseis hipersónicos para a guerra naval. Trata-se dos mísseis hipersónicos YJ-21 e YJ-19, capazes de atacarem barcos inimigos a grande velocidade e com alta precisão. Além disso, a China está a desenvolver e implementar activamente estes sistemas nos seus navios de superfície, como os contratorpedeiros Tipo 055. Escusado será dizer que a frota chinesa está a reduzir rapidamente a brecha com a estado-unidense, à qual Pequim pode agora desafiar abertamente em todo o Oceano Pacífico, tanto em termos do números de navios mobilizados como do armamento que podem empregar, como os mísseis hipersónicos YJ-21 e YJ-19.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos acumularam um atraso nesta área estratégica da investigação militar, o que pode ser qualificado como desastroso. Actualmente, as forças armadas não contam com mísseis hipersónicos. O primeiro —lançado desde terra— provavelmente será o Dark Eagle, que, segundo os rumores, alcança uma velocidade de Mach 6 e um alcance de aproximadamente 2.500 km. No entanto, poder lançar um a partir de uma plataforma marítima ainda demorará alguns anos mais.

O atraso dos Estados Unidos neste sector altamente estratégico da investigação militar não sá põe em perigo a hegemonia militar de Washington no mar, como também demonstra que a investigação militar estado-unidense já não está na vanguarda mundial. Este é um sinal inequívoco de decadência.

Que a narrativa é a que acabei de ilustrar foi demonstrado com o flagrante anúncio feito ontem pelo próprio Putin durante uma visita ao agrupamento unificado das Forças Armadas da Federação Russa: a Rússia tem à sua disposição um míssil de cruzeiro nuclear com um alcance praticamente ilimitado.

A prova final deste míssil, chamado Burevestnik, teve lugar em 21 de outubro. Percorreu 14.000 quilómetros e permaneceu em voo durante 15 horas. Isto, como sublinhou o chefe do Estado Maior General das Forças Armadas da Federação Russa, Valery Gerasimov, «não é o limite».

Segundo os primeiros relatórios, durante o voo do míssil foram executadas todas as manobras verticais e horizontais previstas, o que demonstra a sua superior capacidade para contornar os sistemas de defesa aérea e antimísseis. «As excepcionais características do Burevestnik permitem utilizar o míssil com precisão garantida contra objetivos altamente protegidos em qualquer lugar do planeta», afirma el comunicado.

Segundo os dados disponíveis, o míssil voa a velocidades entre 800 e 1.300 km/h e a uma altitude entre 25 e 100 m, adaptando-se ao terreno. A sua principal vantagem reside no seu alcance ilimitado, garantido pelo seu motor turborreactor nuclear. Isto permite-lhe, em particular, alcançar o território continental dos Estados Unidos desde qualquer direção, contornando as defesas aéreas e antimísseis.

Do ponto de vista da sua entrada em serviço e mobilização, os lançadores «Burevestnik» formarão parte das Forças de Mísseis Estratégicos, já que são mísseis terrestres.

Como bem se pode imaginar, isto supõe uma mudança radical que torna obsoleto o conceito de alcance dos mísseis, além de que essencialmente deixa obsoletos todos os sistemas antimísseis desenhados para derrubar mísseis com trajectória balística, mas que são completamente impotentes contra mísseis que voam a baixa altura.

Trata-se de uma arma letal que permite a quem a possui lançar (ou inclusivamente ameaçar, simplesmente por a ter à sua disposição) um primeiro ataque, capaz de infligir um dano decisivo e inaceitável ao inimigo, reduzindo a sua capacidade de resposta. É claro que muito depende da quantidade de mísseis que se possam mobilizar, mas os especialistas afirmam que com mais de 50 mísseis mobilizados é possível conseguir este objetivo.

Qual poderia ser o impacto político deste anúncio? Em primeiro lugar, poderia impulsionar os Estados Unidos para uma corrida armamentística numa tentativa de eliminar ou reduzir a brecha com a Rússia.

No entanto, é improvável que isso leve Washington a entrar em negociações sérias que levem a um acordo de segurança, como a Rússia exige há anos. As negociações atuais submetem os Estados Unidos a uma situação de subjugação, tanto militar como económica, e Washington jamais se sentará para negociar nestas circunstâncias.

Finalmente, cabe dizer que a Europa não desempenha nenhum papel neste jogo de investigação científica aplicada ao sector da defesa, e que a própria NATO se perfila cada vez mais como um adorno inútil e carente de utilidade, especialmente para os estado-unidenses, que terão de investir todos os seus recursos na investigação científica e na defesa do seu continente, abandonando os seus vassalos à sua sorte.

Afinal, se os russos implantaram um míssil que torna obsoletos os conceitos de alcance e espaço, o que é que os americanos fazem com o espaço europeu, que está em crise económica e tecnologicamente atrasado, e que agora nem é suficientemente bom para desempenhar o papel de “primeira trincheira” num hipotético conflito entre a Rússia e os Estados Unidos?

 

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Giuseppe Masala, nascido na Sardenha em 1973, formou-se em Economia e especializou-se em “finanças éticas”. Ele cultiva duas paixões, a linguagem de programação Python e a Literatura. Publicou o romance (que nas suas ambições deveria ser o primeiro de uma trilogia), “Una semplice formalità” vencedor da terceira edição do Prémio Literário “Cidade de Dolianova” e também publicado em França sob o título ” Une simple formalité”. É autor de um conto “Therachia, breve storia di una parola infame” publicado em uma coleção de Historica Edizioni. Declara-se cybermarxista, mas como Leonardo Sciascia acredita que ” não há escapatória, de Deus; não é possível. O êxodo de Deus é uma marcha rumo a Deus”.

 

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